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Faroeste caboclo

09 de outubro de 2008

                                Hermano de Melo*

Na época da semeadura do milho, dois mil kiowas e 2.500 comanches estavam estabelecidos na nova reserva. Para os comanches, havia algo de irônico no fato do governo forçá-los a deixar a caça ao búfalo pela agricultura. Os comanches haviam desenvolvido uma economia agrícola no Texas, mas os brancos chegaram ali e tomaram suas terras, forçando-os a caçar búfalos para sobreviver. Agora, esse velho gentil, Cabeça Calva Tatum, tentava dizer-lhes que deveriam tomar o caminho do homem branco e ir plantar, como se os índios não soubessem nada do cultivo do milho. Não fora um índio que ensinara ao branco como plantar milho e fazê-lo crescer?”. (Trecho do livro: “Enterrem meu coração na curva do rio”, de Dee Brown). 

É muito provável que a grande maioria dos cinquentões-sessentões de hoje tenham sido fãs de carteirinha dos filmes de faroeste americano nas décadas de 60-70, no século passado (“Búfalo Bill”, “Os brutos também amam”, “Nos tempos das diligências”, “O cavaleiro solitário”, e muitos outros). Em Campo Grande, MS, por exemplo, eram famosas as matinês de filmes de faroeste nos Cines Alhambra, Rialto, Santa Helena, aos sábados e/ou domingos à tarde (ver livro recém-lançado das jornalistas Marinete Pinheiro e Neide Fisher). E isso se repetia praticamente em todo o Brasil – sem contar a compra e troca de gibis, de álbuns de figurinhas e a negociação de outros apetrechos em frente aos cinemas.

Havia nesses filmes, porém, uma característica marcante e, em geral, unidirecional: mostravam o homem branco (cowboys e soldados do exército americano), liderados pelo General Custer, como heróis, mensageiros de Deus, defensores da pátria e veiculadores do progresso; já os índios, sob o comando de Touro Sentado e Cavalo Doido, eram vistos como selvagens, violentos, um entrave ao progresso e ao processo civilizatório. E curioso: o público que assistia a esses filmes torcia fervorosamente pelos cowboys e soldados azuis – nunca pelos índios! Somente ao final da década de 70 é que escritores e cineastas americanos mostraram o chamado “lado bom” indígena em filmes como “O pequeno grande homem”, “Enterrem meu coração na curva do rio”, “Dança com lobos”, e outros.    

Em 1872, o pintor norte-americano John Gant mostrou através de seu quadro “American Progress”, como foi o processo de conquista do oeste naquele país: “Animais e nativos fogem perante o avanço dos pioneiros, da linha de trem, dos agricultores, etc., sendo acompanhados de uma semideusa que cobre o território com linhas telegráficas”. Anos depois (1906-10), este mesmo processo civilizatório aconteceu no Brasil sob a batuta do Marechal Rondon, utilizando-se também de linhas telegráficas e de ferrovias, mas, felizmente, com a criação do Serviço de Proteção ao Índio, órgão que antecedeu a FUNAI. Nas palavras de um autor moderno: “A fronteira é aquele lugar onde a civilização pode avançar à custa do selvagem. É uma delgada linha geográfica onde o velho e o novo, o conhecido e o desconhecido se encontram e se colocam limites”.

Pois bem, guardadas as devidas proporções, em termos de época, lugar, etc., o mesmo processo civilizatório visualizado por Gant (1872) em seu quadro – e os problemas decorrentes dessa visão tacanha dos assim chamados “progressistas de plantão” – voltam a ocorrer, tanto no Brasil, com relação à demarcação das terras indígenas na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima (em julgamento pelo STF), quanto em Mato Grosso do Sul – no que se refere à demarcação de novas áreas indígenas no Estado. No frigir dos ovos, a única alteração que se dá – se é que realmente representa uma mudança – são os agentes econômicos interessados em ver os índios expulsos de suas terras: os latifundiários, o agronegócio exportador, as siderurgias, as carvoarias e as usinas de biocombustível.   

Por isso, não há como deixar de citar aqui o voto do relator da matéria sobre a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, ministro do STF, Carlos Ayres Britto: “A Constituição garante aos índios o direito de desfrutar de um espaço fundiário que lhes assegure meios dignos e que lhes permita preservar a identidade”. (...) “O modelo geográfico de demarcação de terras indígenas é orientado pela continuidade, no sentido de evitar ao máximo o processo de fragmentação física. Somente o modelo contínuo viabiliza os imperativos constitucionais”. (...) “Os brasileiros são visceralmente contra guetos, grades e cercas, o que ocorreria com a demarcação em ilhas”. É isso aí, ministro!  

 

*Escritor e acadêmico de jornalismo (hermelo@terra.com.br)

Hermano de Melo*

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