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Demarcação das terras indígenas: O Boato que ganhou força no MS.

18 de outubro de 2008

Tenho acompanhado, ainda que à distância, a polêmica que se trava aí, em nosso Estado , em torno das recentes portarias da FUNAI. Como faço parte, hoje, do Governo Federal, percebo, claramente, o quão desfocado está o debate. Desfocado e irracional. Deram ao tema uma dimensão que, em absoluto, não tem. É preciso, por isso, separar o que é fato do que é boato.

É verdade que os 40 mil guaranis - os primitivos habitantes da parte sul de Mato Grosso do Sul – estão, hoje, confinados em áreas que totalizam pouco mais de 40 mil hectares, cerca de um hectare por pessoa. Área que, qualquer um há de convir, está muito aquém do mínimo necessário à sua reprodução cultural, biológica e  sócio-econômica. Configurada está, portanto, a necessidade de mais terras para os guaranis.
É verdade, também, que os produtores rurais estão preocupados – e com razão – quanto à indenização das terras eventualmente expropriadas, já que a imensa maioria deles adquiriu suas propriedades de boa fé. É um tema que precisa, pois, de tratamento adequado.
Mas, daí para a tese catastrofista, amplamente difundida, de que os estudos da FUNAI vão resultar na desestruturaçã o da produção agrícola de Mato Grosso do Sul, vai uma distância enorme. Não tem o menor fundamento o boato que alguns andaram espalhando por aí, de que até 1/3 das terras de nosso Estado, até 12 milhões de hectares, seriam destinadas aos guaranis. Nem a cifra menor, de 3,5 milhões de hectares, apregoada pelos boateiros, tem qualquer sustentação. 
O presidente da Associação Brasileira de Antropologia, professor Carlos Caroso, em recente artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo (06/09/2008) , joga um pouco de luz na escuridão do debate ao apontar que “as terras reivindicadas poderão alcançar aproximativamente de 500 mil a 600 mil hectares.”
Assim, percebe-se, claramente, o tamanho da boataria. A reivindicação indígena mal chega a 5% do tamanho do boato maior.  E estou falando da reivindicação. Os estudos é que vão fundamentar a ação governamental. Pessoalmente, conhecendo o tema – como sul-mato-grossense, homem público e engenheiro agrônomo -  ficaria surpreso se a área a ser eventualmente demarcada chegasse à metade do que é reivindicado. E, mesmo que chegasse à metade, ainda assim seria menos de 1% da área de Mato Grosso do Sul.
Ora, isso não ameaça, muito menos desestabiliza a economia estadual; o que desestabiliza é, antes, a boataria. Isso apenas saldaria, em ponto pequeno, uma enorme dívida social que temos todos nós com os índios guaranis, nós que aqui chegamos depois, muito depois deles. Se assim é, cabe, por fim, perguntar o porquê dessa celeuma quase paranóica. Que interesses estão por trás dessa boataria toda?
A meu ver, há, pelo menos, dois tipos de motivação oculta. O primeiro é o daqueles que já tem terras identificadas como terras indígenas e que, por isso, tem interesse em disseminar um clima de pânico geral entre os produtores rurais, capaz de criar um estado de comoção solidária. O segundo é o interesse de eventuais candidatos às eleições municipais, que tentam se beneficiar do clima de pânico que ajudam a espalhar, com o claro propósito de atrair o voto dos eleitores assustados. E há – é claro - o envolvimento ativo de políticos conservadores que vêem em qualquer iniciativa para ajudar os pobres uma ameaça a seus privilégios.
Contudo, a imensa maioria dos que aderiram à tese catastrofista o fizeram, acredito, de boa fé, iludidos pelos que tem interesse nos boatos.
É tempo de rever posições. De restabelecer a verdade e a paz no campo.
É tempo, sobretudo, de mais responsabilidade por parte de nossas lideranças.
   
EGON KRAKHECKE
Ex-vice-governador do MS
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